Originalmente publicado no Site do Discipulado/Heróis da Fé

Um pensamento recorrente entre alguns cristãos é que o Antigo Testamento era apenas para os judeus e que Jesus o anulou completamente. Muita gente torce o nariz quando citamos algum fato a respeito de Abraão, Moisés ou qualquer outro personagem ou passagem do Antigo Testamento, dizendo que “isso era no Tempo da Lei, agora estamos no Tempo da Graça”, como se a Graça nos permitisse passar uma borracha em tudo que Deus disse e fez anteriormente. Me parece aquele tipo de desculpa esfarrapada dada por quem não vê as promessas de Deus se cumprindo em sua vida e não quer admitir que o erro está nela mesma. Para justificar essa idéia, citam o texto em que Paulo diz que a Nova Aliança substitui a primeira (Hebreus 8), no entanto, a Antiga Aliança não é o Antigo Testamento, o Antigo Testamento conta histórias da época em que a Antiga Aliança ainda estava em vigor, e também de uma época anterior a ela.

Deus criou o homem, e quando o homem se desviou, houve a necessidade de formar para si um povo para o qual Ele seria Deus, um povo para andar com Ele por toda a eternidade. A Antiga Aliança foi feita por Deus com Abraão, para formar o Povo de Deus a partir dos descendentes de Abraão, exclusivamente deles. A Lei veio depois, com Moisés, quando o povo já era numeroso e precisava ser organizado. A Lei era um conjunto de regras e rituais a serem seguidos para ajudar na manutenção desse povo e na ligação desse povo com Deus, pois a Lei era cheia de rituais simbólicos. Com o passar do tempo, no entanto, o coração do povo se afastou de Deus e os rituais ganharam uma importância que não deveriam ter. Não que não fossem importantes, mas não poderiam substituir, por exemplo, a obediência e o ouvir a direção de Deus (que deveria ser a base de tudo).

Então Deus enviou Jesus, para morrer pelo seu povo e substituir o sacrifício pelo pecado, e com seu próprio sangue selar a Nova Aliança. Nem todos os judeus o receberam, e por isso a oportunidade de salvação foi estendida aos não-judeus, e pudemos nos tornar filhos de Deus. Esta é a Nova Aliança. A Nova Aliança institui um povo por eleição (na eleição você se candidata e se esforça para se encaixar naquilo que seu eleitor espera de você. O eleitor, no caso, é Deus. Ele dá as diretrizes, e você as segue, para ser eleito. A graça é a oportunidade de participar de uma eleição da qual você não tinha antes do direito de participar), e não mais por hereditariedade. Agora, a oportunidade de se tornar povo de Deus se estendeu para quem o aceitasse e obedecesse, voluntariamente, seus mandamentos. Em lugar nenhum da Bíblia há menção de que as promessas ou advertências feitas antes de Cristo foram anuladas, pelo contrário, se afirma que a Palavra de Deus não falha. A única coisa que foi substituída foi a Antiga Aliança, ou seja, a exclusividade de salvação para os descendentes da Abraão, a obrigatoriedade de serem somente eles o povo de Deus. Hoje ninguém recebe a dádiva de ser povo de Deus sem esforço próprio de negar a si mesmo para obedecer à Palavra de Deus. Ganhamos mais poder, pois temos hoje o Espírito Santo em nós e em nosso meio, para nos orientar e agir através de nossa vida. Mas como diria o tio do Homem-Aranha, com esse poder ganhamos também mais responsabilidades, já que não temos sobre nós a desculpa da ignorância, pois tudo nos é revelado, se buscamos.

Sinto informar, a vinda de Cristo não anula nossa responsabilidade de obedecer, de buscar conhecer a Deus, de nos entregar, de ofertar…pois é, o tipo de oferta e de sacrifício que Cristo encerrou foi pelo pecado, pela redenção, o derramamento de sangue. Jesus não veio para que fosse criada uma nova religião, Ele veio para completar o que já vinha sendo feito, ele não cancela o que Deus fez até então. No entanto, sem os rituais judaicos, que haviam se transformado em formalidades vazias e, por terem sido distorcidos, afastavam o povo de Deus, novas ordenanças tiveram de ser instituídas, traduzindo aqueles rituais e formando um novo modo de viver a fé. No entanto, o ser humano é tão terrível, que conseguiu transformar até mesmo esse novo jeito de adorar a Deus em uma coleção de formalidades vazias, em novos rituais. Parabéns, ser humano, isso deve ser um dom. Não de Deus, é claro. Então os cristãos, mergulhados na graça e cercedos pelo Espírito Santo, conseguiram se enfiar em Isaías 29:13 e hoje Deus pode novamente em larga escala dizer: “Este povo se aproxima de mim e com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas o seu coração está longe de mim, e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, que maquinalmente aprendeu” (este, aliás, foi o texto do Terceiro Segredo, apresentado pelo Pastor Fábio na quinta-feira).  Jesus não somente não anulou o Antigo Testamento, como também nos incluiu nele. Porque tudo o que está escrito ali a respeito do Povo de Deus vale para nós hoje, já que fomos feitos povo de Deus e a Bíblia diz que nosso Deus não muda. E se Ele é o mesmo, a Palavra tem a mesma validade.

Paulo deixa bem claro, em II Timóteo 3:14-17

“Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste e que, desde a infância, sabes as sagradas letras, que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus. Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.”

Quais eram “as sagradas letras”, e quais as Escrituras existentes na época de Paulo? As que ele, em outra ocasião, chama de “Moisés e os Profetas”, ou seja, o Antigo Testamento. Ele diz para Timóteo permanecer naquilo que aprendeu, sabendo quem o ensinou. E diz “desde a infância sabes as sagradas letras, que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus”. Novamente, quais são essas “sagradas letras” que Timóteo sabia desde a infância? Hoje temos também o Novo Testamento, com as cartas dos apóstolos, os evangelhos, o livro de Atos e o Apocalipse, todos nos mostrando nova aplicabilidade da Palavra de Deus, e que se acrescentam à Palavra como escrituras igualmente inspiradas por Deus (o que nos dá uma certa vantagem sobre Paulo e Timóteo, por termos mais conteúdo disponível) mas as “sagradas letras” de que Paulo fala, eram na época apenas o Antigo Testamento. Isso é muito forte! Paulo diz que as “Sagradas Letras” podem nos tornar sábios para a salvação pela fé em Cristo Jesus. A Salvação pela fé em Cristo Jesus é o objetivo na Nova Aliança, não é? O Apóstolo diz aqui que as “Sagradas Letras” podem nos tornar sábios para esse objetivo. Ou seja, se você busca a salvação, se você quer exercitar essa fé, não pode ignorar a sabedoria contida no Antigo Testamento.

Para isso não há outra interpretação, está muito claro: “Toda a Escritura” é a Escritura inteira, o apóstolo não descarta parte alguma. “é inspirada por Deus”, ou seja, é a Palavra de Deus…quem pode invalidar isso? E além do Novo Testamento, o Antigo Testamento é útil para o ensino, pois ali está tudo o que Deus quis falar ao seu povo, e as histórias que mostram como Ele pensa e quem Ele é. O Antigo testamento é útil para a repreensão, pois o que mais tem ali é puxão de orelha por parte de Deus para seu Povo. E se nós somos o povo de Deus, nada mais inteligente do que aprender com os erros dos que vieram antes de nós. E se repetirmos os erros deles…bem, o Antigo Testamento é bem útil para a repreensão, pois tudo está lá, todos os puxões de orelha que você pode precisar receber. O Antigo Testamento também é útil para a correção, quando só um puxão de orelha não te resolve, e você precisa ser corrigido e que alguém te aponte o caminho certo. Também é útil para a educação na justiça, pois ali está tudo o que você precisa saber para poder ser chamado de “justo” por Deus. Somos justificados pela fé, você vai dizer. Mas a fé só vem pelo ouvir a Palavra de Deus. Como você vai ter fé se não conhece Deus? E como conhecer a Deus sem conhecer a Escritura?

E Paulo ainda diz que a finalidade de sermos educados na justiça, corrigidos, repreendidos e ensinados pelas Escrituras, é que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.Então me lembro de quando Deus disse para Abraão: “Anda na minha presença e sê perfeito”.  Paulo nos ensina que o homem de Deus só pode ser perfeito se for educado na justiça, corrigido, repreendido e ensinado através das Escrituras. Você precisa conhecer a Deus, precisa entender como funciona o jeito de Ele pensar, precisa entender o que Ele te pede para fazer e para não fazer, pois de outra maneira não é possível andar na presença dele. Só consegue andar na presença de Deus quem não despreza as Escrituras. Não tem como ser perfeitamente habilitado para uma boa obra sem fazer isso, também. É condição necessária para fazer a Obra de Deus.

A divisão da Bíblia em Antigo Testamento e Novo Testamento é apenas para questões de organização. A Bíblia é uma só, o Antigo Testamento é um capítulo, o Novo Testamento é outro capítulo. Nunca vi em livro algum o segundo capítulo invalidar o primeiro. Nunca invalida, sempre completa. Não há outra forma de ser sincero com Deus, o caminho é conhecê-lo. Quando você o conhecer de verdade, irá amá-lo e naturalmente surgirá em seu coração a vontade de agradá-lo, de obedecê-lo, de entregar-se totalmente a Ele. E você só conseguirá conhecê-lo se enxergar a Bíblia como um todo, como Ele enxerga, esquecendo a mentira que o inimigo inventou (com o objetivo de manter o povo afastado de Deus, pela ignorância) de que o Antigo Testamento está ali de apêndice para informações e nada mais. É como se eu lesse o segundo capítulo de um livro de dois capítulos, acreditando que com aquilo eu saberia o livro inteiro. Perderia a apresentação dos  personagens, o desenvolvimento do conflito, da história, e pegaria só o final, a conclusão. Provavelmente não entenderia nada, só acharia bonito, pelo fato de o livro ser bom e bem escrito. Infelizmente é assim que muita gente tem visto a Palavra de Deus. É hora de acordar, ou sua vida cristã será sempre teórica, pois se você continua a seguir a um Deus que você não conhece, como sabe que está seguindo direito?